Novo Enem: formato qualitativo ou quantitativo?

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“ O formato é novo, mas ratifica antigos erros da história da educação do Brasil.”

No começo de 2009, o ministro da Educação Fernando Haddad, propôs a reformulação do Enem para torná-lo a avaliação de seleção para as universidades públicas federais.

Segundo Haddad, o novo formato do Enem, em que a prova passou de 63 para 180 questões (inicialmente seriam 200, mas o número foi reduzido), divididas em quatro áreas: linguagens, códigos e suas tecnologias (incluindo redação); ciências humanas e suas tecnologias; ciências da natureza e suas tecnologias; e matemática e suas tecnologias indica, para o Ensino Médio, a eficiência da política educacional brasileira, justificada em entrevista à imprensa, quando ele afirma: “Se nós não alterarmos isso, sinalizando para o Ensino Médio que queremos outro tipo de formação, mais voltada para a solução de problemas, vamos continuar reproduzindo conhecimento que não ajuda o Brasil a se desenvolver.”

Pouco se sabe do motivo pelo qual o ministério da educação decidiu praticar a imensa obra de caridade aos pobres mortais (jovens estudantes brasileiros), de diminuir de 200 para 180 o número de questões nesse novo formato. O importante, até então, é que o estudante saiba que ele deve dar graças a Deus por essa decisão, visto que 200 era o número exato de suas questões nas provas do Enem para avaliar o nível de seu conhecimento. O que denota a seriedade e coerência da fala do ministro com a realidade dos fatos.

Sendo assim, torna-se imprescindível o questionamento sobre o número dessas questões, assim como também é inquestionável o fato de que quantidade de questões não avalia conhecimento capaz de ajudar o país a se desenvolver.

O Brasil é marcado pela história da educação quantitativa: informações sem objetivos ou justificativas para sua prática, teorias e mais teorias, sem a devida aplicação cotidiana, despejadas em cabeças julgadas vazias de conhecimento, por sistemas alienadores com vistas à reprodução e ao não- questionamento. A  História de heróis e não de um  povo. A Matemática em fórmulas incríveis para quem não sabe contabilizar o que é possível ser realizado com o salário mínimo nacional.  O estudo científico que não se interessou, ao longo dos séculos, pela ciência que cada aluno adquiriu em sua própria história. E o estudo da Língua Portuguesa? Este não se deu ao trabalho de reconhecer as variedades linguísticas deste povo, sua cultura, seus porquês e suas manifestações, ainda que ministrado dentro de um mosaico cultural chamado Brasil . Por que,ainda,  não se incentivou, nem se desenvolveu a capacidade de argumentar e de explicitar os pensamentos, através das necessidades individuais e coletivas? Irrisório.  Nada disso interessa ao modelo educacional quantitativo, alienador e falido.

Na verdade, a educação brasileira contabilizou o número de informações e o impôs sobre a qualidade delas e ignorou sua aplicação para o desenvolvimento humano, e consequentemente, de todo a nação.

Então? 200, 180 questões. Uma maratona para quem tem maior resistência física e psicológica ou para quem tem conhecimento aplicável ao crescimento do país?

Talvez, apenas uma queda de braços, onde nem sempre o mais preparado vence; mas o mais descansado, o mais paciente, que treinou e treinou e treinou para ler textos e enunciados repetitivos, às vezes até óbvios, mas exaustivamente repetitivos, nos quais a mesma temática aparecerá três, quatro, cinco vezes para testar se há conhecimento ou não. Ironicamente, isso até lembra   velhos programas de auditórios, cujo apresentador, com ar de graça e soberba, questiona a certeza do participante, a cada escolha sua. Contudo, o apresentador ratifica a certeza do participante sem a necessidade de oferecer-lhe perguntas e temáticas repetidas aleatoriamente, oportunizando-lhe até uma certa diversão.

Nada divertido, porém,  é o rendimento nacional que comprova a incoerência entre a fala do ministro da educação e a realização da prova do Enem 2009, pois, conforme divulgado pelo Inep , após levantamento sobre as notas da prova,  mais da metade dos alunos que a realizaram,  não alcançaram a média, ou seja, 50% dos objetivos propostos. Frustrante mesmo é verificar, ainda, a disparidade entre a menor a  e a maior nota que comprova a aplicação do conhecimento  linguístico  e matemático na prova do Enem. Para a área de linguagens, códigos e suas tecnologias, as médias ficam entre 224,3 e 835,6 (de 22,4%  para  83,5% ). No caso de matemática e suas tecnologias, as notas vão de 345,9 a 985,1.

Então?  Quem são  os estudantes de 23% e os  de 83,5%? Como traçar o perfil da educação brasileira? Que medidas serão tomadas diante desse caos? Oxalá que não seja um  Enem 2010 com 200 ou 250 questões a serem resolvidas.

Dar um novo formato à prova do Enem não resolverá o problema de base da educação brasileira, assim como tornar esse processo quantitativo, não o torna capaz de cumprir seu objetivo, inicialmente, justificado pelo ministro Fernando Haddad.

Uma prova para verificar a aprendizagem e sua aplicação técnica vai além de “decorebas” e “maratonas”.  Implica, pois, na elaboração de questões de compreensão das ciências e domínio do conhecimento, de análise e da capacidade de argumentação sobre o que é lícito ou não para a formação de “um país para todos”, possibilitando que isso, mais que um lema, seja, antes, uma realidade.

Contudo, é bom lembrar o velho ditado popular: “corta-se o mal pela raiz”. Caso não haja mudanças significativas na formação do aluno, já nas séries iniciais, estudantes brasileiros continuarão à mercê das jogatinas políticas e o que aparenta hoje ser um avanço, resultará, em breve, num grande retrocesso.

Professora Valéria Duarte Guedes

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