Novato

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Novato

           (Valéria Duarte Guedes)

 

            Vi que ele não falava, ou quando falava, murmurava e eu não ouvia a sua voz.

            Cabisbaixo sempre. Olhar de quem tem medo de se mostrar. Tinha um jeito não sei de quê; porém jeito familiar.

            Simpatizei logo com aquele desafio que me convidava, silenciosamente, à aproximação.

            Quando chegava à sala, ressoava um bom dia entusiasmado e esperava dele algum retorno.

            Já havia um mês de aula, e percebi que não fizera amigos. Sentava-se na fila do meio, em quarto lugar e ninguém o via, ninguém o ouvia, em meio aos trinta e sete colegas que tagarelavam, riam brincavam e se animavam com as aulas .

            Naquela terça-feira, após o poema de Augusto dos Anjos, o comentário sobre a forma defensiva, a qual o autor escolhera para viver, arrancou-lhe um sorrisinho meio amarelo, sem expressão.

            Uma alegria invadiu-me de tal forma que insisti no assunto e algumas piadinhas me escaparam espontaneamente.

            Em casa, pensei: há algo distante e próximo, obscuro e transparente naquele comportamento que passava por imperceptível a alguns olhares.

            Passei a chamá-lo à leitura, ele balançava a cabeça com uma negativa.

            Era atento, fazia as atividades, porém não se manifestava.

            Gostava ou não de estar ali? Sentia-se um intruso? O que lhe causava medo de se mostrar?

            Aquilo tudo era agora uma série de preocupações:

–          Não gostava de mim? Das minhas aulas?

Procurei os colegas, disseram que era realmente assim; era o jeito

dele; “era novato na escola”, “isso passa”; e finalmente, um comentário que me despertou atenção: “veio de uma pequena cidade, não sei qual”.

            Quinta-feira. Aula à tarde. Contei um caso que aprendi com meu pai para ilustrar a personagem Jeca Tatu, de Lobato. Foram muitos risos. O meu jeca, ou seja, do meu pai, agradou os meus adolescentes urbanos, e em especial, notei sorriso gostoso, tímido; mas espontâneo e  feliz como se tivesse intimidade com esse tipo de assunto, vindo lá da fila do meio. Ele ria … ria e entendia do que eu falava.

            Conferir dever de casa daqueles adolescentes prestes a ingressarem em uma universidade não era bom, mas quando peguei aquele caderno, cuja minúscula letra trazia sempre as atividades em dia….

Ah!  Peguei aquele caderno, ergui à altura dos olhos e dei uma vasculhada em outras páginas.

            Na capa, havia uma casa meio campestre desenhada e uns versinhos de uma música que descrevia “um reino encantado”, mistura de recanto feliz com peraltices que me trouxeram lembranças da infância… doce  infância  que vivi. Num dos versos: “a família, pais e irmãos” e o esclarecimento que encaixou tudo: ” bem distante da civilização.”

            Quando acabei de ler, olhei para ele com firmeza e percebi seus olhos fixos em mim como se pressentisse que algo nos unia, inconscientemente.

            Segura daquela mistura de sentimentos, disse-lhe, brincando:

–          Tá com saudade de casa; tá sentindo falta do que é bom. Sei como é!

Um sorrisinho e um balançar de cabeça confirmou minha descoberta.

No dia seguinte, na semana seguinte, no mês seguinte muito havia mudado entre nós. Éramos marinheiros do mesmo barco, com visões diferentes sobre o infinito azul do mar.

          Ele ainda estava aprendendo a conviver com a ausência; eu já não trazia tanta certeza de que isso não era possível.

     Ao final daquele ano letivo, melhor do que saber de sua ida para uma universidade federal, foi vê-lo sentir-se feliz por ter estado naquele lugar, com aquelas pessoas, sem mais a sensação de peixe fora d’água.

   No início do ano seguinte, ele não estava mais lá. E, quando ninguém mais falava nos jovens que se foram, devido às preocupações do ano vigente, uma mãe, de quem nunca ouvi falar e que não me lembrava de ter visto em uma das reuniões por etapa, pede meu comparecimento à sala da coordenação.

 Antes mesmo de me apresentar, ela já dizia me conhecer, e subitamente, entregou-me uma caixa com um delicado lenço e um bilhete em papel colorido: “Sem você, eu não conseguiria ficar. Muito Obrigado. Seu aluno sempre.”

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  1. Olá tudo bem , sou pessíma em redação e português por favor, por onde devo começar para melhora , já tenho 37 anos , terminei o ensino medio em uma escola , que é supletivo ceesvo , agardo resposta anciosa obrigada desde já.Marilda Rego

  2. Puxa! sentei aqui em frente ao computador para pegar umas dicas de redação pois vou prestar vestibular pra pedagogia. Encontrei esse blog e acabo de ler o texto NOVATO. Esse texto me deu ainda mais certeza de que realmente quero ser professora , não há salário que pague uma satisfação de ter sido tão importante pra alguém. Parabéns pelo seu trabalho Valéria.

  3. Valéria.. ainda bem que ainda existem pessoas sensíveis e que além de ensinar o seu conteúdo.. ainda estão antenadas para a individualidade de cada aluno.
    Realmente concordo com você: “er professora é uma das melhores bênçãos que o Senhor me concedeu!”

    Sei o que você diz como educadora, porque também sou uma educadora e assim como você amo minha profissão. E principalmente, sei o que você diz.. porque sou mãe de ex – aluno seu.. e você com seu jeitinho de cativar e ensinar.. fez com que meu filho descobrisse o gosto pela leitura e escrita.

    Minha vez de dizer : Sem você o caminhar do meu filho não seria tão suave. Obrigada pelo carinho sempre!!

    Lucinda Godoy
    .

    • Querida Lucinda;
      ser professora de alunos como o seu filho é muito fácil, é verdadeiramente receber uma grande bênção do Senhor! Mas, como ” o fruto não cai longe da árvore” rsrs… você é uma mãe que sempre foi estímulo, presença carinhosa e exemplo maravilhoso que esse nosso menino seguiu muito bem. Que a graça e a paz do Senhor continuem sobre você e sua família.
      Obrigada por fazerem parte da minha vida…
      Carinhosamente;

      Valéria Duarte

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